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sábado, 29 de julho de 2017

AMENDOINS E AFINS - NOTÍCIAS DA CHÁCARA - NOVOS TEMPOS


   AMENDOIM E AFINS


   Parecia desprotegida aquela postura, de minha mãe, de lidar com seus vasos baixos em pé, as pernas esticadas e a bunda levantada. Um dia, perguntei por que não agachava. 
   Ela não respondeu, mas o tempo ensinaria que, depois de certa idade, assim é melhor, pois fica difícil agachar e também levantar. 
   Agora, também lidando com vasos baixos, vem aquela imagem dela. Que tesouro é a memória, as lembranças suas joias. 
   Lembrança dela comendo amendoins, já bem velhinha mas com apetite de menina, não por fome, disse, mas gosto. Por isso comprei amendoim no supermercado do bairro, em embalagem informal, “dez-real” um quilo – torrado na casca, coisa ainda meio rural neste urbano mundo. 
   Em casa, os amendoins se  mostram torradinhos no ponto, embora com vagens tão miudinhas que apelidamos de amendoim-paciência... Paciência para quebrar as cascas de fora, paciência para descascar as casquinhas de dentro... Amendozen. 
   Em compensação, propiciam receita de jantar expresso caipira: vá mordendo rabanete e pão, pondo também na boca cubinho de queijo curado e amendoins torrados, dá deliciosa mastigação crocante e pastosa. E nem suja louça. 
   Amendoins miudinhos servem também para ensinar a comer devagarinho, sentindo mais o gosto que enchendo a pança. O amendoim-cavalo parece expressar nossa ânsia por quantidade e pressa, grandes grãos fáceis de descascar e bons de encher logo a boca. Os amendoinzinhos, porém, tem casquinha interna tão fina que dão um trabalhão descascar, resolvo comer com casca. 
   Lembro então quando me apaixonei por paçoca feita no pilão, antes descascando os grãos e assoprando, varrendo o piso, uma trabalheira. Um dia, cansei disso e soquei com casca no pilão, a paçoca ficou ótima; aí lembrei de Seo Celso: complicar é fácil, difícil é simplificar...
   Mas, logo depois, passou a paixão por paçoca, temporária como são as paixões, e o pilão foi aposentado como vaso para samambaia; tudo serve de algum jeito para alguma coisa, dizia a mãe. Ela guardava papéis de presentes recebidos para embrulhar novos presentes a dar...
   Escrevo isto comendo amendoins, e acabo diante de uma cuia cheia de cascas, a barriga também cheia mas a paciência igualmente de tanto descascar casquinhas. Se tudo serve para algo, também nada é perfeito... 
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NOTÍCIAS DE CHÁCARA 
NOVOS TEMPOS 
   Dalva e Pietro meditando na montanha em  San Diego: a foto lembra que houve tempo de avós não brincarem com netos. Mas depois houve tempo em que os pais não só brincam como até passaram a tomar banho com os filhos criancinhas, uma revolução. 
   Agora netinhos ensinam avós a celular. O neto noutro continente fala todo dia com os avós, de graça e com imagem, coisa que na infância deles parecia ficção científica. 
   Em apenas meio século, superamos o telefone com telefonista, o telefone discado, a discagem direta à distância e o celular-tijolo, chegando ao iphone que junta tevê, telefone e tantos aplicativos que muita gente diz que não vive sem. 
   E o mais impressionante é essa acelerada evolução, tecendo não só uma nova economia como também uma nova família humana, ser vista com tanta naturalidade. Ou como diz Pietro: - É só ficar sem medo, vô! (Crônica do jornalista e escritor DOMINGOS PELLEGRINI, caderno FOLHA 2, página 3, coluna AOS DOMINGOS PELLEGRINI, 30 e 31 de julho de 2017, publicação do jornal FOLHA DE LONDRINA).

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