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domingo, 23 de outubro de 2016

COMO SER UMA CRIANÇA


   Muitos dizem, até mesmo há passagens bíblicas, que devemos ser como as crianças e nos comportar como tal. Outros tiram da cartola frases clichês como alimentar a criança interior, e deixá-la dominar o nosso ser para conseguirmos a felicidade. Bom, muito se fala nisso porém, pouco se entende o que de fato isso implica e significa. Que sentido tem em ser como uma criança? 
   Evidentemente, um adulto não deve ser uma criança e nem se comportar como se fosse uma. Isso o infantilizaria e o deixaria num estado de imaturidade. Aliás, muitos dos nossos maiores problemas que enfrentamos na vida é devido aos restos infantis que permaneceram em nossa identidade e não foram suficientemente elaborados. Quando agimos feito crianças, sendo adultos, criamos sérias adversidades ao nosso desenvolvimento e bem-estar. A maturidade emocional, que é peculiar ao mundo adulto e não infantil, é um recurso extremamente importante para se viver bem. 
   Até chamamos alguém de infantil ou de criança mimada quando queremos desdenhar dessa pessoa, de forma que ser um adulto infantilizado não é algo bom e que deva ser almejado. Uma criança mimada é aquela que fica entregue aos próprios impulsos, sem conseguir contê-los. No momento da raiva a criança torna-se raiva pura, em outro instante, num momento de alegria, é puro entusiasmo eufórico sem o menor limite. Isso é ser mimado e dá para entender que se um adulto fica fixado nessa posição vai ter muitos problemas. 
   Então, o que significa viver e ser como uma criança? Isso tem menos a ver com o comportamento infantil como forma de resolver os conflitos da vida e mais a ver com a capacidade da criança para o encantamento. 
   Já perceberam que crianças têm uma facilidade para se encantar com os menores detalhes da vida e tirarem deles grandes prazeres? Para os pequenos, tudo nesse mundo é novidade, tudo pode ser muito interessante e oferecer muitos contentamentos. 
   A criança pequena, quando não estragada por preconceitos ou ideias deturpadas que encontra ao seu redor, pouco se preocupa se algo é caro ou barato, certo ou errado, comum ou extraordinário, ela está mais interessada em se encantar com o que vê. Encantar-se é algo importante e que devemos ter em nossas vidas.
   O adulto que perdeu sua capacidade de se maravilhar durante à vida acaba por se tornar alguém amargo. Sabe aquelas pessoas que tudo reclamam, tudo já viram e tudo sabem como vai terminar e nada parece as encantar? Bem assim que ficam: amargas. Só que quem vive assim deixa de aprender elementos novos que enriquecem a experiência, além de se tornarem chatas. Quem não se permite se encantar não tem condições para aprender nada novo e quem não aprende fica entediado com a vida e deixa de valorizar coisas importantes que trazem e formam sentidos que temperam nossa existência. 
   Quando nos evangelhos, por exemplo, Jesus nos convida a ser como criancinhas ele  não está nos instigando a ser adultos infantilizados e tolos. Pelo menos não no meu entender. Ele está mostrando o quanto precisamos sempre ter presente a capacidade de se encantar com a vida, com o que somos e com o que descobrimos. 
   Sejamos, nesse sentido, como crianças que permanecem num estado de curiosidade e assombro perante os mais insignificantes aspectos para cada vez mais saber acerca de nós mesmos e do mundo que nos rodeia. (SYLVIO DO AMARAL SCHREINER, psicoterapeuta em Londrina, página 2, coluna ESPAÇO ABERTO, sexta-feira, 21 de outubro de 2016, publicação do jornal FOLHA DE LONDRINA).

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