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quarta-feira, 29 de junho de 2016

ACHEI, SÃO LONGUINHO!



   Na infância, quando a gente perdia alguma coisa, o jeito era apelar para São Longuinho. Ao encontrar o objeto perdido, eu e Vó Maria dávamos três pulinhos gritando: 
   - Achei, São Longuinho! Achei, São Longuinho! Achei, São Longuinho! 
   Longuinho (em latim Longino) era o nome de um soldado romano que presenciou a crucificação de Jesus. Longhino quer dizer “lança”. Diz a tradição que foi ele quem feriu o lado do corpo de Jesus, já morto: 
   “Um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança e, imediatamente, saiu sangue e água.” (Jo 19,34) Sangue e água jorraram nos olhos do militar, que imediatamente se curou da doença que lhe afetava os olhos. Foi ele, portanto, quem pronunciou a frase que se encontra nos três Evangelhos sinóticos: “Vendo o centurião o que acontecia, deu glória a Deus e disse: Na verdade, este homem era um justo.” (Lc 23,47) Mateus e Marcos atestam que o centurião considerou Jesus “o filho de Deus”.
   Como se sabe, o lado ferido de Jesus simboliza o advento da Igreja no mundo. A partir daquela chaga no corpo do Homem-Deus, passamos a contar com os ensinamentos que abrem os nossos olhos, como abriram os olhos de Longuinho, do cego Bartimeu, do perseguidor Saulo (convertido em São Paulo) e de tantos outros ao longo da história. 
   Nada disso é por acaso – como tudo na Bíblia. O ato do soldado Longuinho, que a partir daquele momento passa a enxergar a plenitude da verdade, representa o percurso de cada um de nós. 
   A transformação de Longuinho foi completa. De torturador de Jesus, ele se transformou em pregador da Palavra. Isso o torna o primeiro pagão a aderir ao cristianismo, talvez precedido apenas por aquele centurião romano (militar como Longuinho) que não se julgou digno de receber Jesus em sua morada – linda prece que os católicos repetem antes da comunhão. Longuinho deixou a farda, tornou-se um monge na Ásia Menor e teria morrido ainda no governo de Pôncio Pilatos, tendo os dentes quebrados e a língua cortada. Se renegasse a fé em Cristo, seria perdoado. Preferiu a decapitação. 
   Sobre a fama de santo “achador” de objetos perdidos, há uma versão curiosa. Diz-se que Longuinho era baixinho. Durante as festas no período imperial de Roma, ele era designado para procurar objetos perdidos debaixo das mesas pelos convidados. Para isso, ele utilizava uma pequena tocha, uma lanterna. De certa forma, isso o aproxima do filósofo Diógenes de Sinope, que andava pelas ruas de Atenas com uma lanterna em pleno dia, dizendo: “Procuro um homem justo!” Em Jerusalém, Longhino encontro o homem que Diógenes procurava.
   Quando Maria e José perderam o menino Jesus por três dias, em Jerusalém, foram encontra-lo no Templo, entre os sábios. A resposta de jesus no momento em que Maria e José o reencontram é um sinal para cada um de nós: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?” (Lc 2,49)
   São Longuinho, ajudai-me sempre a encontrar a verdade. Vó Maria, me ajuda também? ( Crônica do jornalista e escritor Paulo Briguet. Fale com o colunista: avenidaparana@folhadelondrina.com.br página 3, caderno FOLHA CIDADES, espaço coluna AVENIDA PARANÁ, quarta-feira, 29 de junho de 2016, publicação do jornal FOLHA DE LONDRINA).

Um comentário:

  1. Obrigado por seus sábios comentários. Não retiro nem coloco uma palavra sequer.

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